A complexidade Ética e Moral para emitir um Juízo de Valor


Não vou ficar escrevendo newsletters com conceitos de ética e moral. Penso que isso pode ser feito em outro lugar mais apropriado aos estudos.

Apenas para finalizar a explicação que já iniciei nas newsletter 1 e 2, vou colocar um pouco mais de conteúdo sobre a complexidade da ética e moral e a emissão de juízos de valores. Peço desculpas aos que não gostam de conteúdos mais densos, mas meu objetivo aqui é mostrar que não tem “jeito fácil” para aprender esses temas. Mais uma vez, esqueça os Standup Philosopher’s, seus discípulos e os que aprenderam ética e moral no Google.


Como é o estudo estruturado da ética?

O estudo passa por analisar os contextos em que os conceitos éticos foram definidos (desde Sócrates, Platão e Aristóteles, passando por todo medievo e modernidade, chegando na contemporaneidade com Adolfo Sánchez Vázquez, Adela Cortina, Peter Singer entre outros). É necessário estudar os filósofos originais e não seus comentaristas. São leituras interdependentes de outros filósofos, ou seja, você lê um e tem que ler um outro para saber o porquê desse um ter escrito tal texto e assim vai um livro conectando outro. A hora que você percebe, passaram anos em estudos. No meu caso 16 anos.

Basicamente os estudos éticos e morais compreende entender a seguinte estrutura:


Ética: De caráter universal, trata do estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal.

1.1 Metaética: Não determina o que fazer, mas investiga a natureza dos princípios morais, indagando se são objetivos e absolutos os preceitos defendidos pelas diversas teorias num mundo sem Deus.

1.2 Ética Normativa: Não consequencialista, determina o que é correto, não segundo uma finalidade a ser atingida, mas segundo as regras e normas em que se fundamenta a ação. A análise das consequências de um ato ou comportamento não deve influir no julgamento moral sobre as ações ou as pessoas.

1.3 Ética Aplicada: Aplicação de princípios extraídos da ética normativa para a resolução de problemas éticos e morais cotidianos.

1.2.1 Ética Deontológica: Pretende responder: “O que devemos fazer?” ou, de forma mais ampla: “Qual a melhor forma de viver bem?”

1.2.2 Ética Teleológica: O que é correto? Com uma certa finalidade, um fim (telos), que se pretende atingir.

1.2.2.1 Ética Consequencialista: Fundamenta-se nas consequências da ação.

1.2.2.2 Ética de Virtudes: Considera o caráter moral ou virtuoso do indivíduo.

1.2.2.1.1 Egoísmo Ético: O ser humano deve agir em seu próprio interesse.

1.2.2.1.2 Utilitarismo: O ser humano deve agir em função do interesse de todos.


Qual o objeto da ética e da moral?

O objeto da ética é a reflexão profunda e estruturada das ações humanas, em relação ao bem e mal com viés universal. A ética é a inspiração para elaboração dos códigos morais, que tratam do certo e errado com viés singular.

O objeto da moral é a realidade que constitui o objeto de estudo, ou seja, as ações realizadas por parte das pessoas, o que há de certo e errado nelas. Devemos, contudo, estabelecer uma diferença entre atos humanos e atos do homem:

Atos humanos: são aqueles realizados com base em uma deliberação racional. Quando uma pessoa realiza atos verdadeiramente humanos, ela tem consciência do que faz e é responsável pelo que faz. Aqui, a reflexão ética, se apresenta dominante.

Atos do homem: são atos que não são livres, porque são involuntários ou decorrem da falta de conhecimento. Também pertencem a esta categoria os atos derivados da fisiologia do homem, que são processos sobre os quais o homem não tem nenhum controle.


Feita essa distinção, podemos afirmar que o objeto formal da moral é o estudo dos atos humanos baseado no que há neles de certo ou de errado, ou seja, baseado na sua moralidade. É como o ser humano interpretou a reflexão ética e agiu.


Com relação às fontes da Ética, em primeiro lugar temos a razão, que trata de fundamentar a moral com argumentos bem elaborados; em segundo lugar, os sentimentos, que Kant valoriza apenas como uma das fontes, enquanto para Hume parecem ser as únicas fontes possíveis da Ética (entretanto, o ponto intermédio entre os dois parece o mais acertado); e, em terceiro lugar, as experiências, que são a base de muitos princípios gerais — valemo-nos da experiência para chegar ao conhecimento dos princípios morais que regem a conduta humana.


Qual a função da ética e moral nas nossas vidas?

Esclarecer o que é a moral e fundamentar a moralidade. Além disso, temos:

  • Ajustar a moral aos princípios aceitos e aplicados nos diferentes códigos morais;

  • Função moralizadora: a Ética pretende inspirar a vida dos homens, e dar-lhes critérios e valores que ajudem a elaborar juízos morais.

  • Função personalizadora: a Ética nos humaniza, no sentido de que o homem, para chegar a sê-lo de fato, necessita adquirir os valores éticos que lhe permitem, em sua essência, viver em sociedade. O homem necessita de uma aprendizagem para poder julgar os fatos com base em um ponto de vista ético.

  • Função crítica e de denúncia: dar ao homem os princípios que lhe permitem julgar os fatos ou os códigos morais.

  • Função utópica: a Ética indica ao homem que deve buscar o “desejável” como o melhor para si; que ele vive de acordo com seus ideais, ainda que utópicos. A Ética não quer com isso enganar o homem; antes, quer propor-lhe que estabeleça para si mesmo metas — que até podem parecer irrealizáveis — para que, pelo menos, tente aproximar-se delas o máximo possível. Chamo isso de Postura Ética: um exame permanente das minhas ações e condutas com o outro, em relação a fazer ou deixar de fazer o bem e o mal.

  • Função criadora de valores: propõe uma série de valores (entendidos como aquilo que a inteligência julga ser bom e desejável) e critérios que o homem deve levar em conta em seu modo de agir.

Juízo de Valor

Juízo que estabelece uma avaliação qualitativa sobre algo, isto é, sobre a moralidade de um ato, ou a qualidade estética de um objeto, ou ainda sobre a validade de um conhecimento ou teoria. Juízo que estabelece se algo deve ser objeto de elogio, recomendação ou censura.

Em relação ao Juízo de Valor, pode emitir um juízo: quando estamos preparados e com repertório para tal, ou suspender o juízo: quando não temos conhecimento para aprofundando de um fato e dos conceitos que necessitam para emissão do juízo.

Por experiência e estudo há vários anos, compreendo que, para emitir um juízo de valor imparcial, equânime e, portanto, justo, é necessário buscar a intencionalidade do fato (acontecido) e procurar responder as seguintes questões:

  • O que está por trás do fato?

  • Qual a compreensão real do fato de cada agente envolvido?

  • Por que os agentes consideram suas razões corretas?

  • Existe algum ponto nos argumentos em que todos ganham e/ou perdem menos?

  • Sua análise é imparcial e justa?

  • Consegue emitir um juízo de valor de forma confortável?

Tudo isso que mostrei é um pouco da complexidade do estudo estruturado e profundo da ética e moral, necessário para emitir um juízo de valor. Sem esse estudo, estamos fadados a utilizar o que temos como valores, ou seja: Valores Familiares, Valores Religiosos e Valores Cívicos. Se você notar a gênese desses valores ela não traz no seu bojo a universalidade necessário para ética e nem os conceitos mais avançados da moralidade conhecidos nos famosos “combinados” dos grupos.


Podemos notar essas “falhas” que existem nos valores mencionados como: não cumprimento dos códigos de conduta, corrupção, extorsão, roubo e furto e demais mazelas. Esses valores (familiares, religiosos e cívicos) são apenas réguas individuais que utilizamos para emitir um pseudo juízo de valor, não equânime, parcial e, portanto, injusto.


Embora denso o texto, espero que você tenha entendido a importância dos estudos éticos e morais e compreendido a importância também de desenvolver uma cultura ética e moral organizacional, ao invés de utilizar os valores individuais de cada um.

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